Presente

Acorda, abre os olhos. Ainda é cedo, está de férias, mas rotina é implacável. Levanta. Lembra-se que precisa trocar o pneu. Merda, deixo tudo pra última hora!

Calor. Muito calor. Todos correndo. Ainda bem que o embrulho, o único, para a pessoa mais especial, já está pronto. Ao menos desta vez, enfrentou o medo de nada mais ter que fazer e antecipou-se, fez antes. Milagre! É a época.

Época de desejar. Tudo de bom! Felicidades! Vai se foder, sua biscate invejosa, olha como eu estou magra! Ah, seu filho da puta, comprou carro novo, né? E aquela grana que você me devia, cadê? Filho da puta.

Mas o sorriso está aqui, gargalhado, amarelo de cigarro e casca. Lindos, os presentes. Muitos! Olha como posso comprá-los.

Com a tarde, cai a bad. Vai chegando a hora, vai chegando a hora. Come, bebe, cheira um lolozinho pra aguentar o pega mas não chocar tanto a família. Só os doidos pegam. E estes entendem, mais do que querem. E grita, e canta, e reza, e dá presentes, e tudo muito estranho. Muito pouco sentido.

Mas que cara mais chato. Tá todo mundo feliz! Será que isso vai passar? Será que isso tudo vai mesmo passar? Acho que não, mas deve melhorar. Nada disso existe de fato, é tudo invenção. Mas o que não o é?

Tá, ok. Exagerei. Pintei só com tons cinzas o que tem algo de cor. É a época.

Amo muita gente, muita gente me ama. E se o ser humano é este saco maravilhoso de bosta, que precisa de rituais para se descolar desta porra de vida cíclica e enxergar a essência da existência. Se este ser genialmente imbecil precisa consumir pra mostrar afeto. Foda-se esta merda. Que torre-se a grana, que faça-se a alegria do cão.

No fim, a gente nunca sabe de nada mesmo, só do cheiro do próprio umbigo.

Feliz natal.

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Incompetência

Estádios, praças, 25 de Março. Tudo vazio de gente. A vegetação rasteira já começa a dominar a paisagem estanque, explorada por bichos curiosos e fartos. O fenômeno começou há pouco mais de dois meses, súbita e inexplicavelmente. Arma biológica? Cólera divina? Vingança da natureza? Não houve tempo.

Pedrinho conversava com José Carlos sobre a queda do Palmeiras para a Série B. A segunda. Não faziam chacota, torciam pela recuperação do rival abatido, quando palavras estranhas começaram a sair pela boca de Pedrinho.

– Jacqs potleds con flacs klicois embhar ghogs, disse. E continuou.

– Brockauts trendstent roaw marinoust florstrow, woux drexts amp trondle??

Com o tom de pergunta deixado no ar, José Paulo franziu a testa, girando levemente a cabeça para a direita, em tentativa de desfazer o estranhamento que sentia, já que a feição de Pedrinho era a de alguém à espera de uma resposta qualquer, talvez um simples gesto de sim. Porém, primeiro curioso, então aflito, José Carlos interrompeu o discurso de Pedrinho para tentar entender o que se passava.

– Talcor fratis hudelartines valoscatio ponderinot, disse.

– Okih gkuflouks comts tchois?

Confusos, os dois tentavam reestabelecer o estado natural das coisas, ou ao menos conseguir expressar-se, sem sucesso. Quanto mais palavras saíam de suas bocas, maior era a incompreensão da situação recém-apresentada. Primeiro, ordenadamente, um falava, enquanto o outro tentava, perplexo, entender. Depois o inverso. Logo, porém, ambos já com feições nervosas, tocavam-se e apelavam aos gestos, conforme o volume de seus grunhidos subia.

O desespero estava prestes a tomar conta de ambos, quando a mãe, Maria dos Conformes, seduzida pela movimentação, chegou à sala, também sem entender nada. Tentou tomar a palavra, mas filho e marido, além de falarem línguas estranhas a ela, pareciam não mais reconhecer seu vocabulário elementar. Neste instante, Maria dos Conformes foi atacada por uma luz de intensidade maravilhosamente insuportável.

A mulher deu dois passos e bateu com sua canela na quina da mesa de mármore, baixa, de centro, a qual limpava todos os dias e cuja posição levava irrepreensível na memória. Tentando tatear as paredes, guiava-se pela algazarra sonora de filho e marido, que já discutiam, sem compreender que mal lhes acometera.

Maria gritava, aflita, enquanto filho e marido, que tinham as mãos tapando os olhos, saíram porta afora. Os dois deixaram a casa e amontoaram-se com seus vizinhos, estupefatos, balbuciando vocábulos incompreensíveis, rosnados, enquanto batiam cabeças à procura da compreensão.

Carros perdendo o controle e se chocando ao som de gritos indecifráveis de terror. Em algumas horas, multidões ensandecidas saqueavam o que era encontrado: alimentos, água, armas. Caos e pânico tomavam a cidade, e era impossível saber o real estado ou motivo da situação. Fogo! De onde apareceu este fogo? Cadê a água?

Mas tudo não perdurou por mais que alguns dias. Seis, na verdade. Logo, tudo era tranquilo, e o rumo do equilíbrio havia finalmente sido retomado.

Não há mais caos, multidões, barulho. Só se pode ouvir o sussurrar macio do balançar das árvores, do roçar das folhas no chão ainda petrificado, por onde as gramíneas já surgem com força. Só há o gorjear liberto das aves. Não há mais tempo para desculpas ou agradecimentos.

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A partida

Eles não se veriam mais tão cedo. Ela tava pra ir embora, ou sei lá. Acho que foi isso. Ele pega um livro da mochila e entrega.

– Você vai ler, mas vai devolver, tá com dedicatória.
– Hmmm “Dias de Rock and Roll”. O que é?
– É de um amigo daqui, tem a sua cara, mas não leve mal o comentário depois de ler.
– OK.

Enquanto ela desce, ele olha. Que bunda! Ela sempre finge que fica sem graça com suas secadas, mas essa risadinha safada não nega. Tá na cara! Tá até corada! Deve ter ficado molhadinha. Mas não, não. E eu sim, sim. Ela gosta do jogo, e sabe jogar, a safada. Saco!
Ele desce a rampa, senta e põe o fone. Tira o baseado da mochila, dechava, bola, ascende e chapa. É daquele. Ao som de Level Five, uma das novas do King Crimson – huaha “novas” –, rabisca umas palavras na mente, pensa que precisa escrever aquilo, que precisa ler mais, estudar mais, fumar menos, ler mais. Dá mais um trago. Lembra que tá feliz, mas vai passar. Olha a loira subir e pensa: te prego na parede! É um pedreiro, mesmo.
Tá tudo um porre, uma zona, e ainda começa a chover.

– Porra! Tô de bike! Caralho!

Adora chuva, se sente bem nela, sexy, sei lá, mais magro, ainda mais de preto e jeans, sei lá. Sobe, entrega uns papéis correndo, encosta no parapeito do quarto andar e fica olhando o povo lá embaixo. Será que tem alguém interessante? Desço lá tomar uma? Só se for Heineken. Cara fresco. Desce. Na orelha, Ramble On.

– E aê! Viu ela?
– Tava aqui agora, mas subiu.
– Cê ta gata, hein!

Subo de novo, só quero saber de ir embora, quando vejo ela lá, sozinha.. É agora!
Fecho a grade com cuidado e meto o cadeado da bike. Agora já era! Entro pisando forte, ela já sabe quem é. Quando me vê, faz uma cara teatral de medo, mas respira fundo e sabe que não tem mais jeito, vai ser agora.

– Qué isso? Que cê tá fazendo?
– Não! Não!
– Isso, me pega! Isso!

Molhados da chuva, derrubo ela sobre o balcão e a devoro de beijos e mordidas insaciáveis. Boca, rosto, pescoço, peitos. Seguro seus cabelos com força pela nuca, ela deixa escapar um gemido alto, põe a mão na boca, solta outro riso safado e se entrega. Sobe no balcão, me abraça com as pernas e me beija como se eu fosse o único, o último.
Arranco sua blusa e devoro seus peitos. Que peitos! Duros, empinados, dizendo “vem, me chupa”. Mordidas, gritinhos, respiração ofegante. Enfim, sim!
Levanto, com ela agarrada em mim pelas coxas, mudo pra sala e a jogo no sofá, que gruda. Estouro os botões de sua calça e arranco-a com força. Subo de novo e vou beijando desde o pescoço. Que cheiro! Como é gostosa!
Chupo com vontade. Até o caroço! Cara, beiços, dedos e dentes. Ela pula, grita, se contorce. Eu sorrio. Safada!
Ela goza, mas não descansa. Abro a calça e meto com força. Danço, pulo. Ela urra. Levanto ela pelas pernas na parede gelada, que arrepia, e toma! Jogo ela de quatro no sofá duro e distribuo tapas naquele monumento de bunda, que rebola, até gozar gritando, enquanto a meia luz que entra pela janela dá à cena aquele ar de filme cult. Love me two times, babe.

– Que foi isso?
– Sei lá. Quer mais?
– Agora!
– Espera, preciso fumar.

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inspirado pelo livro do amigo Edmilson Felipe

pois compre-o aqui, oras!