Contra-ataque

A arte vai vencer. Por sobre os Ricardos Teixeiras, Joões Havelanges e Josephs Blatters, por cima dos Edilsons Pereiras e dos Abramovichs, passarão soberanos os Ronaldos, os Neymares e os Messis.

O brilho do olho que segue a bola que rola é maior que o do ouro que adorna a joia. Rara. Pois, no momento do sopro, do primeiro tilintar daquela minúscula esfera plástica dentro do apito do árbitro, no instante do primeiro beijo sintético entre bola e chuteira, o mundo deixa de ser real. Desfazem-se as mazelas, esvaem-se as aflições, e os corações têm só uma razão de ser: torcer.

O sorriso branco do moleque preto há de vencer a alma negra dos cartolas amarelos, gordas sanguessugas. Pois quando no palco, presente e pulsante, o amante da redonda se expande e canta contente. Ele é o todo, é o estádio. Abraça o outro, descansa do fardo e pula, berra pro alto!

Levando a vida, ele espera o dia, que chega e cheira diferente desde cedo, a emoção e ocasião. E passa assim. Ele vai pra arquibancada, pra numerada ou pro chão. Bar, casa, pay-per-view ou telão. De Zeppelin, caminhão, a pé, de taxi ou busão. Perder não!

Há quem chame circo, ópio do povo: engano, engodo. O sangue que pulsa pela camisa na veia do crioulo corre na do mulato; na do cafuso, do branco e do pardo; do japonês, do nigeriano; do cigano, do empresário e do padre.

A maravilha batalha do bem contra o bem há de seguir cessando a tolice das guerras. O menino que corre atrás da bola na rua há de seguir sonhando em ser o astro do clube do peito. Tem jeito. Não há contrato que ofusque o talento inato.

O povo que canta em coro, que rala o couro atrás do louro sofre, padece. Mas renasce, cresce e ama! Sempre! A imensa massa que invade a praça, transpassa raça e empurra com força esmaga a minoria cretina que tira sangue, vida e não sabe de nada. De nada.

Os senhores dos tribunais, boçais, orgulhosos e invejosos de atenção, não. Nunca desfrutarão o prazer de ser senhor do espetáculo maior. Os contratos de gaveta, as gravatas e as bravatas são menores que os fios da grama que trama o relvado sagrado. Pois o retrato do placar faz o tempo maleável, flexível, quântico. Implacável ou imóvel precede o êxtase ou o inferno.

Ah, o inferno da derrota! Singular sensação, tal mistura precisa de dor e frustração que sufoca o peito, apaga a luz da alma enquanto falta, até o próximo domingo ou quarta, o doce sabor da vitória. Glória! Vigor transborda e em tudo melhora: humor, amor, trabalho, estudo, és tudo!

Vem. Deixa rolar a bola nos pés dos de bem. Que o gol, o clímax da vida do boleiro, o libertar-se da existência para ser maior que tudo vai vencer.

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Festa

Ela era vida. Os cabelos longos, lisos e crespos, castanhos e claros, denunciavam intensidade e sensibilidade. O corpo esguio, mas moldado de carnes, do tipo que incendeia a mente masculina, sugava a atenção como a chama ardente de uma fogueira dos nostálgicos tempos de festa.
Era dia de festa. Ele descia a rampa calma e compassadamente, com um ar bonachão e um tanto arrogante. As vestes simples contrastavam com a complexidade dos anseios recentes que o perturbavam. Sossega, cabeça! Mas quando a vê, sente dissolver em paz e compreensão todas as dúvidas, passadas e futuras, em um transbordar de boas sensações. Ao girar de um pescoço, em meio aos fios de vontade, desvenda-se um sorriso arrebatador. Que mulher é essa?! Já sabia. Era vida.

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