Antropófago

– Vai!
– Chuta essa bola!
– Vai!
Braços, gritos e crianças para o alto

.

.

.

nota: o autor deglutiu o poema “O Capoeira”, de Oswald de Andrade:

“- Qué apanhá, sordado?

– O quê?

– Qué apanhá?

Pernas e cabeças na calçada.”

Sim

Dúvida…
Ela vai ler!

rufam os tambores
do peito
e aguça
a consciência:

saborear
os poucos
segundos
de luz

Olhos perpassam
pixels

e aprovam

Lábios
movem

sem pressa

repetem,
afônicos,
os versos
suados

em valsa,
dão graça
em sorriso
agridoce
e lindo!

Como é lindo!

E esvai-se
o medo
de mim

Sim

Incontente
de contente,
por entre a janela
da alma:

o sim!

Virgulina

Da orquestra,
é maestrina

Divide tempos,
dita o ritmo,
harmoniza

ferramenta útil
em mãos hábeis,

é dada às entrelinhas,
dispensa holofotes
e brilha,
natural

Completa,
une,
explica,
convoca

respire

Distorce, embaça
encaixa saberes
e sabores

inverte, liberta

De minha orquestra,
és maestrina,
Virgulina!

Sorte

No bar, despediu-se com um abraço delicioso, encaixado, que deixou aquele ar de quero mais. Engoliu a cerveja rejeitada e partiu em direção ao estacionamento, setor das bicicletas. No caminho, olhava-a ir embora, passos calculados, como soubesse que havia alguém a espiar. Durara pouco, como sempre.

À beira do cadeado: – Cadê a porra da chave?!, exclamou ele, que era adepto dos pensamentos altos, eles merecem o som. Procurou, fuçou, esmiuçou, esvaziou, enlouqueceu a mochila, e voltou-a às costas, desolado com a própria sorte. Tentou rastrear a sempre confiável memória visual, mas não encontrou a imagem, o momento em que guardara o molho na bolsa.

Déjà vu.

Este sentimento era comum em sua vida, ele era dado a perder as coisas, um de seus defeitos mais característicos. Sentiu-se inútil: como pudera perder aquele pequeno conjunto de metais tão preciosos?!
Buscou ligeiro uma solução, que veio: ligar para ela, que deveria estar perto e daria uma carona. Sacou o pré-pago. Morto. Bateria zero. Sequer ligava para ver o número e ligar do público. Que sorte! Devia ter de cor.
Saiu pisando forte, sisudo, reforçando as rugas que já nasciam devido à expressividade e à já não tão pouca idade, inconformado com o próprio desapego pelas tarefas simples do dia a dia. Escrevia, pintava, tocava, criava, e perdia a chave.

Conformou-se.

Fumou um cigarro perigoso até o terminal de ônibus e aproveitou cada passo, respirando a cidade, os outros, o medo. Sensações que fizeram valer a pena do trajeto e abriram as portas de sua percepção. Para ele, já era tudo certo. Esquecera a chave ao lado de dentro do portão, batera-o, distraído de olhares com a bicicleta, e saíra pedalando feliz, despreocupado, ávido pelo exercício diário que lhe lavava a alma de monóxido de carbono.
Tomou o ônibus certo da verdade. Chegou rapidamente, pois pensou em músicas que gostava e batucou freneticamente nos bancos vazios. Desceu, atravessou a rua iluminada e ainda movimentada – SP – e caminhou os dois quarteirões que precediam o desfecho, até então previsto.

Chegou de fronte ao meio portão de ferro, destes que trazem o ar de segurança ingênua que não existe mais, como cacos de vidro colocados no muro. Transpassou, era sempre aberto. Estendeu a mão cheio de certeza em direção à maçaneta do portão moderno, estilo cela de cadeia, certamente necessário.
Fechado!
Tudo escuro. Tudo certo!
– Mas que diabos!, praguejou.
Perplexo, traído pela própria experiência, sentou à beira da calçada.

Enfiou a mão na mochila, e tirou o molho de chaves de primeira, de um bolso escondido, maluco, que nunca usava.

– BURRO! BURRO!, gritou aos céus.

Entrou e, ao olhar para o local de descanso da amada, pensou nela sozinha, no estacionamento, presa por uma fria corrente ao cano gelado, à companhia apenas do suor que habitava o capacete. Mas sorriu.

Sua percepção estava expandida. Sentiu-se privilegiado por viver a vida e seus infortúnios irônicos, causados por sucessão de fatos aleatórios, que se combinam sem prever, formando algo novo, e lindo. Celebrou o milagre da vida que acabara de presenciar.

Compartilhou o causo. Riu muito de si mesmo. Chamou-se de burro de boca cheia. E adormeceu leve. Feliz da vida.

Acaso

Ele estava deitado, as costas mal se acochambravam no vinco do colchão que ganhara, enquanto pingava, incessantemente, o cano da pia do banheiro. A noite já despertara, o ofício era próximo do fim, e a cabeça, tomada por Lênia, remoía possíveis soluções para um problema clássico: o outro. A dispersar, chamou a melhor amiga para sair, fumou um cigarro, daqueles, e vestiu-se, como fosse encontrá-la. Como fosse admissível, na modernidade líquida da Paulicéia Desvairada, um acaso iluminado, desejado, realizar.

Saiu sorrindo.